Revisitando Lygia

Uma das maiores autoras do nosso tempo, Lygia Fagundes Telles, é quem foi indicada pela União Brasileira de Escritores (UBE) para o Prêmio Nobel de Literatura, cujo ganhador será revelado em outubro. Aos 93 anos de idade, a dramaturga concorre com outras lendas vivas do mundo todo e vai digladiar pelo Nobel, que nunca foi concedido a um profissional brasileiro, independente de qual área atua.

 Se não rolar o Nobel, tá tudo certo também. Lygia já deixou registrado seu nome na história da Literatura Brasileira, ganhou o Jabuti, ganhou o Camões e tem seus romances traduzidos para dez línguas. Todo mundo, até os menos chegados em leitura, já pelo menos ouviu falar da escritora, nem que tenha lido o resumo na internet de um de seus livros catalogados para o vestibular... “Antes do Baile Verde”, “Venha Ver o Pôr-do-Sol” e “Seminário dos Ratos” são alguns dos contos instigantes de sua autoria e obrigatórios para o brasileiro conhecer um pouco do estilo da escrita praticada no século XX.

 Lygia já escreveu crônicas para jornais, quatro importantes romances – sendo “As Meninas” a sua possível obra-prima –, mas se consolidou mesmo com contos, tendo participado de mais de 15 coletâneas. Suas histórias recorrentemente atribuem posição de destaque a personagens femininas, oscilando de dóceis a pesados retratos, mulheres batalhadoras ou vulneráveis, um reflexo de seu tempo

Vivendo à sombra da tradição machista das editoras, ancoradas na ideia de que escrever era um ofício do homem branco de elite, o movimento feminista que eclodiu nos anos 1960 foi propulsor para a entrada da mulher no seara que era a literatura brasileira. Até então, só a Clarice Lispector tinha algum tipo de reconhecimento. Depois disso, alguns nomes “começaram a aparecer”, tais quais Cecília Meirelles, Rachel de Queiroz e a própria Lygia.

Assumiu a presidência da Cinemateca Brasileira, fundou a UBE, ocupa cadeira na Academia Brasileira de Letras até hoje, junto com o marido fez algumas adaptações para o cinema de obras literárias como “Dom Casmurro” e encontrou espaço para se sobressair diante do excludente campo literário. A concorrência não vai deixar por menos, mas é fato que motivos para ganhar o Nobel, Lygia tem de sobra.