Mad Max e a epítome do insano

O mestre australiano George Miller não é muito de trabalho, não. Se observarmos a filmografia do cara, percebemos um hiato de, no mínimo, cinco anos de um projeto para o outro. Sua última aventura nas telonas foi a animação “Happy Feet” (2006), daquele pinguim felizão que não pode ouvir uma música que sai dançando e, antes disso, “Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade” (1998), com o suíno filhote falante. 

É muito bizarro pensar que o mesmo maestro desses dois filmes regeu a sinfonia do caos no espetacular “Mad Max: Estrada da Fúria”, em cartaz nos cinemas. Mas se voltarmos pra década de 1970, no finalzinho, e relembrarmos a anarquia do cenário pós-apocalíptico no primeiro filme da franquia, um Mel Gibson consumido pelo ódio em busca de vingança, um mundo devastado pelo medo e solidão, aí faz mais sentido. 

Se você achou que no original ou nas duas sequências posteriores o grau de loucura já havia chegado no topo, prepare-se que o seu cérebro vai fritar com esse novo capítulo. Em “Estrada da Fúria, Miller amarra de forma orgânica a história de perseguição com subtexto político a umas cenas de ação mindfuck das mais impressionantes do cinema nos últimos anos (décadas?). É realmente admirável o que o cineta faz com a sua câmera, um verdadeiro espetáculo megalomaníaco da desordem, um balé desregulado da destruição, com direito a acrobatas, contorcionistas e uma espécie de trio elétrico rock n’ roll com o sósia do Pepeu Gomes assumindo uma guitarra que cospe fogo. Literalmente. 

Um dos aspectos mais incríveis neste novo “Mad Max” é o seu apelo old school. O filme não abandona a essência da trilogia e ainda consegue injetar vigor e um espírito ainda mais transgressor à distopia infernal da produção. Miller disse aos produtores que gostaria de usar o mínimo possível de efeitos de computador para as cenas, optando usar a Namíbia, na África, como locação para as filmagens no deserto em vez de um painel verde enorme de cromaki para refletir o cenário. Foram também usados dublês reais e maquiagem artesanal para a experiência ser mais verídica. 

Para além da explosão em massa que consome grande parte do filme, o roteiro inclui alguns argumentos ambiciosos de ordem feminista que posiciona a mulher como um agente ativo na trama. A figura máxima é representada pela personagem Imperatriz Furiosa (olha esse nome!), que não fica devendo em nada para as Tenentes Ripley (Alien) e Sarahs Connors (O Exterminador do Futuro) das telonas. Esse empoderamento do sexo feminino em “Mad Max: Estrada da Fúria”, inclusive, provocou reações negativas (hiperlink: http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-113367/) de uma tal associação gringa chamada MRA (Men’s Rights Activists) em defesa dos direitos dos homens. Os caras se sentiram ofendidos porque a mina do filme é tão foda quanto o personagem-título. 

Só por esse mimimi já é mais do que motivo para assistir o novo “Mad Max”. Mas, principalmente, porque é uma obra-prima contemporânea do cinema de gênero. Ficamos na torcida para que Miller abandone esses filmes de animais falantes e invista no que sabe fazer de melhor: pirofagia bem coreografada aliada a um texto esperto. Que venha “Mad Max 5”!