As faces de Nuno

Guiado pelo cheiro da tinta e pelo barulho da lata, foi assim que o artista plástico Nuno Skor teve o primeiro contato com o graffiti. Chegando no ponto, perto de sua casa, ele avistou um cara fazendo os retoques em uma tartaruga enorme no muro. “Ele achou que eu o fosse dedurar pra polícia, mas quando me viu com aquela cara de bobo, admirado, me convidou pra acompanhar o trampo dele”, lembra. Nuno nunca mais encontrou o tal grafiteiro, mas adentrou o universo da arte urbana e recorda de ter feito, aos 12 anos, o seu primeiro pixo: num muro do bairro do primo, o desenho era de uma mulher negra com o cabelo black esvoaçando, talvez uma lembrança de infância que trazia da Angola – seu país de origem – para a Suíça, onde morou até os 29 anos.

Foi lá, durante a década de 1990, que Nuno foi desenvolvendo o seu traço também com influência de uma crew que participava e reunia todos os tipos de artistas de rua, incluindo grafiteiros, rappers e street dancers. “No geral, o graffiti na Europa é bem forte, é encarado como uma expressão artística e tem apoio de órgãos públicos. Mas claro, tem uns países que são mais austeros.”

Austeridade foi o que Nuno sentiu vindo ao Brasil, em 2010, onde o graffiti está diretamente associado aos piores males da sociedade. Mas a cegueira não impede a arte de acontecer; pelo contrário, a impulsiona e dá fôlego. “Você reconhece o estilo europeu, o estilo de Nova York e Los Angeles só de bater o olho. O do Brasil, não. É um dos melhores do mundo porque mostra diversidade e inovação, tem uma liberdade maior para o artista criar uma identidade para si, porque é isso o que você precisa fazer, se encontrar”, declara. Então, Nuno foi procurar o seu estilo, acompanhando outros pichadores, observando e estudando diferentes técnicas, experimentando novos conceitos...

Um pouco daqui, um pouco dali sai o novo seu. Isso é um busca constante, o artista não pode ficar parado.
— Nuno (Skor)

Quando questionado “qual o estilo de Nuno Skor?”, a resposta não vem de imediato. Rola toda uma história, uma contextualização, com influência d’Os Gêmeos (Gustavo e Otávio Pandolfo, de São Paulo), o traço fino e a imagem chapada, a “pira minimalista”, mas defende-se: “hoje eu estou exagerando nas minhas coisas”.

O visual do Rock

Sketches para o projeto das paredes do Rock and Honda Curitiba

“Quando me perguntam o significado das artes do Rock and Honda, eu nem sei o que dizer, porque não tem o que explicar, é na base do improviso, do sentimento. Aí devolvo a pergunta: ‘o que você sentiu?’ Se causou algo diferente da pessoa, quer dizer que estou no caminho certo.”

Arte do Nuno nas paredes do Rock and Honda (Unidade Tiradentes - Maringá PR)

Nuno explica que nas paredes do Rock and Honda rola um contraste, pois é preciso manter a energia do local, mas também injetar ritmo, som, música, rock. É um lado punk – representado pelos personagens simbólicos que remetem ao Japão, como samurais, robôs e dragões – com a proposta de uma gastronomia “zen”, tranquila, que ganha forma no personagem da marca, o Buda. “A recepção do trampo foi bem bacana, posso dizer que foi o meu trabalho de maior repercussão.”