O.J. Simpson e a paranoia coletiva dos Estados Unidos

Vocês se lembram do episódio envolvendo o ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson? Em 1994, já um atleta com carreira consolidada, ele foi acusado de matar a facadas a ex-esposa Nicole Brown e um amigo dela que a estava visitando em sua casa. Meses depois do assassinato, O.J. encarou um julgamento – na época, televisionado – que durou mais de 1 ano, o qual foi absolvido e considerado inocente, mesmo com as centenas de provas evidentes de que ele foi o responsável pelas duas mortes. Anos depois, O.J. protagonizaria mais um crime, desta vez, envolvendo roubo e sequestro, pelo qual foi condenado a 33 anos de prisão e cumpre até hoje.

O caso das mortes tendo como acusado uma celebridade, negro, milionário, com amigos influentes – o atual presidente Donald Trump aparece em uma foto com o criminoso – e ídolo do esporte de outrora gerou uma comoção social e midiática nos Estados Unidos sem precedentes. Uma verdadeira novela movida pela histeria. O apogeu e a decadência da vida de O.J. Simpson, alinhada a um relevante recorte histórico sobre o racismo em Los Angeles, é explorado no imperdível documentário produzido pelo canal ESPN, “O.J.: Made in America”. O filme é dividido em 5 episódios e tem, no total, 7h30 (!!) de duração. Mas, podem assistir na boa, porque vale cada minuto.

Retratando os acontecimentos de forma cronológica, o diretor Ezra Edelman inicia o filme em meados dos anos 1960 e mostra como os olheiros viraram as atenções a O.J., um jovem negro, de origem humilde e que ganhou uma bolsa de estudos em uma renomada faculdade por se sobressair no campo de futebol. E, de fato, as imagens não deixa mentir: quando O.J. estava em quadra, não tinha pra ninguém, o resto todo comia poeira. Se tem algo a se espelhar nesse indivíduo é a sua força de vontade e o seu espírito indomável de querer colecionar vitórias. E assim, ele se tornou mesmo um campeão. Com méritos. Foi o primeiro atleta a ter patrocínio de empresas grandes, assinou com grandes clubes, ia para as mais badaladas festas, começou a nadar no dinheiro.

Paralelamente às conquistas de O.J. Simpson, o documentário enfoca em alguns episódios escritos a sangue na história dos Estados Unidos, como a Revolta de Watts, em que os negros se rebelaram e foi promovido um massacre a céu aberto na periferia de Los Angeles. A comunidade negra estava protestando contra a polícia de LA, que abusavam do poder e tinham em seu histórico milhares de casos de racismo. Para os negros terem seus direitos civis conquistados foi uma luta, porque eles eram considerados inferiores por todas as esferas sociais, não podiam estudar em escola de branco, não podiam sentar no ônibus, etc. E o que mais dói é perceber que isso tudo aconteceu há apenas 50 anos, é extremamente recente e reverbera até hoje.

A Revolta de Watts, o caso da adolescente Latasha Harlins, de 15 anos de idade, que foi morta a tiros por uma lojista coreana, e o taxista Rodney King, espancado por uma gangue de policiais apenas porque estava em alta velocidade. Todos esses casos vieram a público porque haviam câmeras amadoras no flagra. O descontentamento e sangue nos olhos da comunidade negra é justificado porque nenhum desses criminosos brancos, nem a coreana, nem os policiais, pagaram pelo que fizeram. No máximo, uma multinha e meses de serviço comunitário.

“O.J.: Made in America” abre espaço para esses casos para espelharem na vida de O.J. Simpson, um homem de pele negra que é visto como branco pela sociedade. O próprio já concedeu várias entrevistas dizendo que não quer ser tratado pela sua questão racial, colocando-se superior a isso. Esse é um discurso utópico, porém comovente ao público, pois ninguém quer mesmo ser tratado pela cor da sua pele. Uma das questões – sem respostas – que o filme levanta é: por que o negro mais admirado dos Estados Unidos nunca levantou a voz para falar sobre questões políticas e defender os brother? Afinal de contas, o julgamento que ele enfrentou nos anos seguintes teria um júri popular composto por pessoas negras, pessoas essas que ele nunca se pronunciou a respeito. Em vez disso, preferia levar a sua vida cheia de privilégios. O.J. não era obrigado a nada, obviamente, mas diante daquele cenário aterrorizante, negros apanhando da polícia todos os dias, seria importante a nação ver um posicionamento de alguém que eles cultuavam. Ia mudar alguma coisa? Ninguém pode responder com certeza.

Trata-se de um documentário não só sobre a vida do ex-atleta O.J. Simpson, mas dos sintomas da América, da cegueira social, da injustiça... “O.J.: Made in America” faz um panorama extremamente reflexivo, iniciando em lados opostos e encontrando, aos poucos, o seu ponto de convergência. É um trabalho memorável, o documentário é uma obra-prima sobre raça, classe, gênero e status de celebridade, e vale muitíssimo a pena assistir. Melhor filme do ano na opinião do Buda.