O terror cego, surdo, mudo e eficiente

Qual a receita básica de um filme de terror? Há várias fórmulas, mas uma que todo cineasta segue à risca é criar um vilão imponente – ser sobrenatural ou portando alguma arma letal – e colocá-lo diante de uma vítima em desvantagem, indefesa ou distraída. Os exemplares slasher geralmente partem desse princípio, como “Sexta-feira 13”, “Halloween”, “A Hora do Pesadelo”, dentre um zilhão de outros títulos que se popularizaram nos anos 1980 e estão aí como influência até hoje para algumas fitas.

Soa até repetitivo a maioria. Por isso que em um gênero relativamente desgastado como o horror, é mais interessante quando algum diretor/roteirista consegue encontrar brechas para criar, para ser original. É o que o uruguaio Fede Alvarez faz com “Um Homem nas Trevas”, atualmente em cartaz nos cinemas. O filme acompanha 3 jovens que sobrevivem invadindo casas alheias e roubando dinheiro. Um dia eles ficam sabendo de um senhor idoso e cego, veterano de guerra, que reside em um bairro afastado e que tem uma fortuna escondida de uma indenização. Sendo assim, eles combinam uma noite para entrar às escondidas na casa do cego e repartir a grana.

Mas “Um Homem nas Trevas” soa original por subverter uma situação bem corriqueira do gênero: em vez de colocar um cego como vítima de bandidos e criar uma atmosfera de tensão a partir daí, o roteiro faz dos bandidos a presa e o cego o predador que tenta defender sua casa. E aí, meus amigos, se preparem para se contorcer na poltrona, porque a mão desse diretor é muito boa! Sustos inspirados, situações mirabolantes, o uso da trilha sonora é bem pontual. Mais do que se apavorar ao acompanhar a história se desenvolvendo e muito mais do que levar susto (cinema de terror não é só isso), aqui você sente gastura, algumas passagens chegam a ser agonizantes, doentias, perturbam o psicológico. Isso sim é um filme de terror digno.

Aproveitando o lançamento de “Um Homem nas Trevas” e a ideia cruel de gato e rato com algum portador de deficiência – visual, nesse caso -, o Buda decidiu listar 5 filmes de terror em ordem cronológica que partem dessa mesma premissa e que são interessantes exercícios de tensão. Pega o caderninho e anota as recomendações.
 

Silêncio nas Trevas (1945)

Aqui estamos diante de um clássico do terror, que abriu portas para várias questões abordadas futuramente, incluindo o pioneirismo do primeiro filme do gênero a usar uma protagonista muda como vítima de um serial killer à solta, obcecado em assassinar mulheres com qualquer tipo de deficiência. O título original da obra é “A Escada Caracol”, que é justamente onde se passa uma das cenas mais cagaço e inesquecíveis do filme.



Um Clarão nas Trevas (1967)

A atriz Audrey Hepburn entrega um dos seus melhores desempenhos nesse ótimo e perturbador thriller, sobre três homens que invadem a casa de uma mulher cega e a aterrorizam por diversão. Hepburn foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel, algo bem incomum para a Academia de Hollywood reconhecer boas atuações em filmes de terror. Essa foi uma exceção.



Terror Cego (1971)

“Um Clarão nas Trevas” fez tanto sucesso nas bilheterias que quatro anos depois o diretor Richard Fleischer pegou o mesmo molde do filme e fez “Terror Cego”, substituindo Audrey Hepburn pela bela Mia Farrow, que estava no auge do cinema de terror por conta do grandioso “O Bebê de Rosemary” (1968). O filme é interessante, com uma linguagem bem mais comercial, mais sanguinária... não achamos um vídeo decente no YouTube, então vai essa versão com dublagem medonha em português haha.



A Hora do Lobisomem (1985)

Lembra daqueles filmes impróprios para os menores que o SBT passava nas tardes do Cinema em Casa? Eu não sei como Rei Silvio Santos driblava a censura e exibia uns terror trasheira para as crianças. Que saudades... um deles é “A Hora do Lobisomem”, baseado no romance de Stephen King. Aqui, não tem ninguém cego, nem surdo, nosso herói é paraplégico e é interpretado por Corey Haim, um dos moleques do sensacional “Os Garotos Perdidos” (1987) e da comédia marota “Sem Licença para Dirigir” (1988).



Hush – A Morte Ouve (2016)

Uma jovem surda está sozinha em casa. “Sozinha” até aparecer um maluco vestindo uma máscara que inicia um jogo sádico com a mulher só porque não tinha nada melhor pra fazer. É muito desolador e tenso porque não sabemos as motivações, nem de onde esse cara saiu para fazer tamanho absurdo. O filme é ótimo, bem acima da média e é dirigido pelo promissor cineasta de terror Mike Flanagan, que está em cartaz nos cinemas com outro exemplar, “O Sono da Morte”, que é bem ‘marromenos’. Esse é bem superior e tem de graça no catálogo da Netflix. Fica a dica.